Polifarmácia em idosos: o risco do excesso de remédios
Tem idoso que chega ao consultório com uma sacola cheia de caixas de remédio. Dez, doze, quinze medicamentos diferentes. Alguns prescri-tos por especialistas diferentes que nunca conversaram entre si. Alguns comprados por conta própria. E a família achando que quanto mais remédio, mais cuidado. Não é bem assim.
O que é polifarmácia
Polifarmácia é o uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos por um mesmo paciente. Em idosos, é extremamente comum — e frequentemente problemática. Não porque os medicamentos sejam desnec essários individualmente, mas porque o organismo do idoso os processa de forma diferente do adulto jovem, e porque a interação entre eles pode ser imprevisível.
O envelhecimento altera profundamente a farmacoci nética — a forma como o corpo absorve, distribui, metaboliza e elimina medicamentos. O que é uma dose segura para um adulto de 40 anos pode ser excessiva para um idoso de 80, mesmo com o mesmo peso corporal.
Dados: Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e Journal of the American Geriatrics Society.
Por que o idoso é mais vulnerável aos efeitos dos medicamentos
O organismo envelhecido muda de formas que afetam diretamente a ação dos fármacos:
- Função renal reduzida — a maioria dos medicamentos é eliminada pelos rins. Com a função renal diminuída pelo envelhecimento, os remédios ficam mais tempo no organismo, acumulam e podem atingir níveis tóxicos.
- Alteração na composição corporal — maior proporção de gordura e menor de água corporal mudam a distribuição dos medicamentos no organismo.
- Metabolismo hepático mais lento — o fígado processa os medicamentos com menos eficiência, prolongando o efeito de muitas substâncias.
- Maior sensibilidade do sistema nervoso central — idosos são muito mais sensíveis a medicamentos que atuam no cérebro, como ansiolíticos, sedativos e alguns analgésicos.
- Menos reserva funcional — qualquer efeito adverso tem impacto maior porque há menos margem de compensação fisiológica.
Os riscos concretos da polifarmácia
Polifarmácia não é só uma questão de quantidade — é uma questão de segurança real. Os principais riscos documentados incluem:
Interações medicamentosas
Quando dois ou mais medicamentos interagem, o resultado pode ser imprevisível: um pode amplificar o efeito do outro, cancelar sua ação ou gerar uma terceira reação não esperada. Com cinco ou mais medicamentos, o número possível de interações cresce exponencialmente.
Efeitos adversos confundidos com doenças
Este é um dos problemas mais sérios: sintomas causados por medicamentos são interpretados como novas doenças, levando à prescrição de mais remédios para tratar o que já era efeito de outro remédio. Em geriatria, chamamos isso de cascata prescritiva — um ciclo que se autoalimenta e que só a revisão cuidadosa consegue interromper.
Quedas e declinio cognitivo
Remédios para dormir, ansiolíticos, alguns anti-hipertensivos e antihistamínicos afetam o equilíbrio, a atenção e o tempo de reação. Em idosos, isso se traduz diretamente em maior risco de quedas — e de comprometimento cognitivo que pode ser confundido com demência.
Se o seu familiar começou a apresentar confusão mental, tontura, sonolência excessiva, quedas ou perda de apetite após iniciar um novo medicamento ou ajuste de dose — comunique o médico responsável imediatamente. Não suspenda o remédio por conta própria.
Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos
A literatura geriátrica tem listas validadas de medicamentos que devem ser usados com cautela especial em idosos — os chamados Critérios de Beers (American Geriatrics Society) e a Lista STOPP/START (europeia). Esses critérios identificam categorias de medicamentos cujos riscos frequentemente superam os benefícios na população idosa.
Não vamos listar medicamentos específicos aqui porque a decisão de manter, ajustar ou suspender qualquer remédio é exclusivamente do médico responsável, com base no contexto clínico completo do paciente. O que importa saber: existem ferramentas científicas para essa avaliação, e o geriatra é treinado para aplicá-las.
Como o geriatra faz a revisão de medicamentos
A revisão de medicamentos é parte obrigatória de toda consulta geriátrica. Não é uma listaão rápida — é um processo estruturado que inclui:
Todos os medicamentos em uso, incluindo os sem receita, suplementos, vitaminas, fitoterápicos e remédios caseiros. Por isso pedimos que o paciente traga as caixas ou receitas.
Cada medicamento tem uma razão para estar sendo usado? Alguns são mantidos por inércia — prescritos anos atrás para uma situação que já passou.
Verificação sistemática de interações entre os medicamentos em uso, com ferramentas clínicas validadas.
As doses estão ajustadas para a função renal e hepática atual do paciente? Doses prescritas para adultos jovens frequentemente precisam de ajuste em idosos.
Qualquer alteração — suspensão, substituição, redução de dose — é discutida com o paciente e a família, considerando preferências e objetivos de cuidado.
O que a família pode fazer antes da consulta
A melhor contribuição que a família pode dar para a revisão de medicamentos é simples: reunir tudo. Antes da consulta geriátrica:
- Juntar todas as caixas de remédios em uso, incluindo os de uso eventual
- Incluir suplementos, vitaminas e qualquer produto comprado em farmácia sem receita
- Trazer as receitas médicas mais recentes de cada especialista
- Anotar se o paciente toma todos os remédios como prescrito ou pula doses
- Registrar qualquer sintoma novo que apareceu após mudança de medicamento
Nunca suspenda, reduza ou substitua medicamentos sem orientação médica, mesmo que o remédio pareça desnecessário. A retirada abrupta de alguns medicamentos pode causar rebound ou efeitos graves. O geriatra fará qualquer ajuste de forma segura e gradual.

Médica geriatra com residência no HC-UFMG e mestrado em Medicina Translacional pela FCMMG. Membro titular da SBGG. Conteúdo baseado nos Critérios de Beers (AGS), Lista STOPP/START e diretrizes da SBGG.