Avaliação geriátrica ampla (AGA): o que acontece na consulta
A maioria das consultas médicas tem 15, 20 minutos. O geriatra leva mais tempo. Essa diferença não é arbit rária — ela reflete uma abordagem completamente diferente de cuidado. A Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) é o método estruturado que permite enxergar o idoso por inteiro, não apenas a doença que o trouxe ao consultório.
O que é a Avaliação Geriátrica Ampla
A AGA é um processo diagnóstico multidimensional desenvolvido especificamente para a população idosa. Ela surgiu da observação clínica de que idosos têm necessidades que os métodos tradicionais de avaliação não capturam: problemas interligados que não aparecem num hemograma, uma perda cognitiva sutil que só emerge em testes específicos, um risco de queda que só fica claro ao observar o paciente andar.
Estudos clássicos publicados no JAMA e no Lancet mostraram que idosos avaliados com a AGA têm menor taxa de hospitalização, melhor funcionalidade e maior satisfação com o cuidado. Não existe outro método com evidência equivalente em geriatria.
As 8 dimensões avaliadas na AGA
A AGA não é uma consulta alongada — é uma avaliação estruturada que cobre domínios que uma consulta convencional não toca:
Testes padronizados de memória, atenção, linguagem, orientação e funções executivas (MEEM, MoCA, teste do relógio)
O que o paciente consegue fazer sozinho: atividades básicas (banho, vestir, comer) e instrumentais (cozinhar, pagar contas, usar telefone)
Avaliação da marcha, equilíbrio, força muscular e risco de quedas (TUG, teste da cadeira)
Revisão completa de todos os medicamentos, suplementos e fitoterápicos em uso
Rastreio de depressão, ansiedade e distúrb ios do sono com escalas validadas
Avaliação de risco nutricional, perda de peso involuntária e composição corporal
Dinâmica familiar, sobrecarga do cuidador e adequação da rede de apoio
Avaliação da visão e audição, adequação de óculos e aparelhos auditivos
Como é a consulta na prática
Conversa detalhada com o paciente e o acompanhante sobre as queixas principais, histórico médico, cirurgias, internações, hábitos de vida e história familiar. As duas perspectivas são igualmente importantes e frequentemente divergem de formas reveladoras.
Aplicação dos testes padronizados: Mini-Exame do Estado Mental, MoCA, teste do relógio e outros conforme indicado. Avaliação da marcha e equilíbrio. Aplicação de escalas de humor e rastreio nutricional.
Análise de cada medicamento em uso: indicação, dose, interações, adequação à função renal e hepática. Identificação de possíveis cascatas prescritivas e medicamentos potencialmente inapropriados para idosos.
Exame direcionado às áreas relevantes para geriatria: pressão em diferentes posições, força de preensão, avaliação da pele, ouvidos, visão e outros sistemas conforme indicado pela história.
Discussão dos achados com o paciente e a família. Definição das prioridades, ajustes de medicamentos quando indicados, solicitação de exames e encaminhamentos. Orientações práticas e agendamento de retorno.
Não é uma lista de problemas. É um plano de cuidado personalizado com prioridades definidas, o que vai ser feito, por quem e em que prazo. Para muitas famílias, é a primeira vez que têm um mapa claro da situação do seu familiar.
O que trazer para a consulta
- Todos os medicamentos em uso — as próprias caixas ou receitas, incluindo suplementos e vitaminas
- Exames dos últimos 2 anos — laboratoriais, de imagem e relatórios médicos
- Cartão de vacinas
- Dispositivos de auxílio — óculos, aparelho auditivo, bengala — para avaliação de adequação
- Um acompanhante — preferencialmente alguém que convive com o paciente no dia a dia
Quando a AGA é especialmente indicada
A AGA é útil em qualquer idoso, mas é especialmente indicada em situações de maior complexidade:
- Primeira consulta geriátrica — para estabelecer o baseline funcional e cognitivo
- Após hospitalização — para avaliar o impacto da internação e reorganizar o cuidado
- Quando há suspeita de comprometimento cognitivo
- Idosos com polifarmácia ou múltiplas doenças crônicas
- Após queda com ou sem fratura
- Quando a família percebe mudança no comportamento ou na funcionalidade
- Para planejamento de cuidados de longo prazo
AGA é diferente de consulta de rotina
Uma consulta de rotina com clínico geral ou especialista é focada: vão resolver um problema, renovar uma receita, avaliar um exame. É necessária e tem seu papel.
A AGA é uma avaliação de base — um inventário clínico completo do idoso naquele momento. Ela não substitui as consultas com outros especialistas; ela as organiza. Ao final, a família sabe quais problemas existem, qual a prioridade de cada um e quem é o médico responsável por cada parte do cuidado.

Médica geriatra com residência no HC-UFMG e mestrado em Medicina Translacional pela FCMMG. Membro titular da SBGG. Conteúdo baseado nas diretrizes de AGA da SBGG, AGS e evidências publicadas no JAMA e Lancet.